As Ordens Religiosas fazem parte da história religiosa, social, cultural e política de Portugal desde a sua génese. Pertencem a um processo global em que o caso português acompanhou, participou e se confundiu com a gestação da própria consciência cultural europeia.
As suas raízes profundas encontram-se nos primeiros séculos do Cristianismo, nesse intenso movimento de procura do encontro com Deus protagonizado pelos Padres do Deserto a partir do século IV da nossa era. Num contexto novo de abertura do Império Romano ao Cristianismo e de concessão de condições favoráveis para a livre profissão da fé e do culto cristãos, mas também de uma inusitada e crescente aproximação entre as estruturas políticas e eclesiásticas, desperta essa torrente de emigração para o deserto por parte de muitos seguidores de Cristo. Pareciam temer que o fim das adversidades trouxesse uma tranquilidade e monotonia inimigas da exigente entrega à luta interior necessária para levar à prática a fé cristã.
Seduzidos pelo ideal de cumprimento rigoroso dos conselhos evangélicos, procuram no despojamento do deserto o habitat heróico em que podem pôr à prova a capacidade de fidelidade a Cristo, renovando, sob outras formas, a experiência martirial que marcara os primeiros tempos da Igreja. Na sua experiência de metoíkesis, os eremitas vivem a emigração, física e interior, que os faz passar da segurança e comodidade da vida comum em sociedade, para o risco de terem de inventar, na pobreza e na renúncia, ásperos caminhos de encontro consigo mesmos e com Deus.
Depois de ter sido prática dos Padres do Deserto e dos seus seguidores, o abandono da vida mundana e a partida para o deserto à procura de mais intensa intimidade com Deus ficaram como símbolo da etapa decisiva de quantos optaram e continuam a optar pela vida consagrada. A experiência de fuga mundi dos Padres do Deserto servirá de paradigma da vida monástica que, entretanto, florescerá no período medieval. Os mosteiros passarão a constituir a morada por excelência daqueles seguidores de Cristo que desejam manter radicalmente vivo o vigor profético e o horizonte escatológico do Evangelho. Em circunstâncias de caos e crise dos impérios e dos valores, serão também eles, em larga medida, os responsáveis pela preservação e transmissão do legado cultural do passado que hoje é património de toda a humanidade. Mas a entrega que o religioso faz de toda a sua vida a Deus para, mediante a profissão dos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência, se empenhar na via da santidade, segundo o carisma próprio do instituto a que aderiu, nunca o isola em absoluto da comunidade humana. O encontro com a plenitude do mistério de Deus é sempre vivido com tanto mais intensidade quanto mais rica, diversa e profunda for a dimensão de humanidade que a experiência religiosa transporta dentro de si. Segundo um célebre adágio do monaquismo antigo, o monge “é aquele que se separa de todos para se unir a todos”.
Desde os primeiros tempos da instituição da vida consagrada, tem esta oscilado, no que respeita à componente comunitária, entre duas situações-limite, o anacoretismo e o cenobitismo. Na primeira, o consagrado afasta-se do convívio fraterno e propõe-se travar a luta pela santidade, retirado no ermo. Na segunda situação, experimenta-se a vida comunitária de acordo com uma regra e sob a direcção de um superior. Mas, entre o total isolamento e a completa inserção no dia-a-dia de uma comunidade de vida num mosteiro, existiram e persistem muitas variantes nas formas de organização da existência consagrada. E devemos reconhecer que diversidade semelhante se verifica ainda entre os pólos de contemplação e de vida activa ou entre os modos de assumir o carisma singular, segundo o qual cada ordem ou congregação vive a sua identidade espiritual na imitação de Jesus Cristo.
Seja qual for o modo próprio de estar no mundo ao serviço de Deus, acompanhando as transformações e vicissitudes próprias de cada época e de cada experiência cultural, os religiosos sempre estiveram presentes e participaram tanto nos grandes como nos mais humildes acontecimentos da sociedade. Na vida portuguesa, à semelhança do que sucedeu com todos os povos europeus, tanto no plano religioso como nos campos social, cultural e até político, encontramos marcas indeléveis da intervenção profícua das Ordens e Congregações religiosas.
O Concílio Vaticano II (1962-1965) veio propor uma renovação também no modo de encarar o papel das Ordens e Congregações religiosas, no quadro de um novo entendimento do papel destas na Igreja e da missão da própria Igreja no mundo contemporâneo. Elas emergem assim, no âmbito de uma vocação comum dos cristãos à santidade, como testemunho privilegiado da radicalidade inerente ao seguimento de Jesus. Ao fundar neste seguimento os alicerces de uma arte de viver feita de pobreza, obediência e castidade, a vida consagrada não está apenas a interpelar criticamente os grandes ídolos da civilização contemporânea. Mostra também que há, afinal, outros caminhos por onde, sem ganância, sem obsessão de poder e sem idolatria do prazer, se conquista a felicidade de amar, de dar e de servir.
Vindos de épocas mais ou menos remotas, os religiosos continuam presentes e inseridos no mundo contemporâneo, enfrentando as contrariedades e resistências da mentalidade hedonista e pragmática vigente e tentando responder aos seus desafios. E não faltam sequer novas fundações, em que o sentido do apelo de Deus e da Igreja imprime o alento de carismas, mais adaptados às exigências de tempos novos e de novas necessidades. Importa também afirmar que as Ordens contemplativas continuam a ser importantes na actualidade, ao lado dos institutos vocacionados para a vida activa. Desempenham, na perspectiva introduzida pelo Concílio, a função de sentinelas de Deus, em permanente vigília orante, como sinais proféticos de um Mundo Novo de harmonia e paz, cujo advento acompanha a agitada aventura humana.
Ao contrário do que seria de esperar, o relevantíssimo significado social, histórico e cultural das Ordens e Congregações religiosas na vida nacional não obteve ainda toda a atenção verdadeiramente empenhada da investigação científica e da comunidade reflexiva portuguesa, de modo a promover o estudo desse fenómeno histórico em toda a amplitude das suas coordenadas e implicações.
Diversos factores concorreram para esta situação, a que não são alheios os contextos particularmente atribulados que marcaram as relações entre Estado e Igreja ao longo de todo o século XIX e após a implantação do regime republicano, em 1910. A extinção das casas religiosas e a dispersão dos respectivos acervos artísticos, bibliográficos e arquivísticos, a par da nacionalização do seu património móvel e imóvel, dificultaram um trabalho historiográfico que se confrontou com uma mole enorme de documentação, muitas vezes dispersa e desordenada, sem qualquer inventário ou tratamento adequado. Os olhares sobre a história, a presença e o papel das Ordens e Congregações religiosas acabou também por se deixar aprisionar por visões pré-concebidas, sempre limitadas e limitadoras, ajudando a perpetuar uma historiografia muito frágil, em larga medida fundada nas visões da cronística moderna e sem grande suporte documental.
A realização de um congresso sobre Ordens e Congregações religiosas em Portugal, no enquadramento temporal das celebrações do primeiro centenário da República, visa constituir um contributo para a alteração deste panorama ainda muito insuficiente em termos dos estudos sobre a história e os contornos da presença destas instituições na sociedade portuguesa. O presente congresso pretende assim criar um espaço de reflexão renovada sobre as problemáticas que rodeiam a própria história das Ordens e das Congregações, seja no contexto específico da I República, seja no quadro mais vasto da longa, rica e complexa história da sua presença entre nós.
Deste modo, a realização de um Congresso Internacional, subordinado ao tema “Ordens e Congregações Religiosas em Portugal – Memória, Presença e Diásporas” obedece ao propósito de promover a concretização dos objectivos seguintes:
- Analisar criticamente as coordenadas da presença das Ordens e Congregações em Portugal, tanto na dimensão religiosa e eclesial como na sua inserção nas complexas dinâmicas sectoriais e globais do mundo contemporâneo;
- Actualizar e aprofundar o nosso conhecimento acerca da caminhada longa e multifacetada das Ordens e Congregações religiosas intimamente associadas, desde sempre, às vicissitudes da história da nação e cultura portuguesas;
- Contribuir para um mais actualizado conhecimento do legado e do contributo das diferentes Ordens e Congregações para o nosso património colectivo, na diversidade de vectores da vida social e cultural, desde a evangelização à espiritualidade, à assistência, à saúde, ao ensino, à economia, à literatura, à música, à arquitectura, ao património e às artes em geral;







































